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Nós
entramos na idade da abstração.
De um lado, o que de mais abstrato
do que o virtual? Novo alfabeto, o virtual se impôs como uma abstração
eficaz. O virtual aliou-se ao real. Ele se imiscuiu, integrou-se e
finalmente dissolveu-se nas coisas. Nomes e números, imagens e modelos, presenças
e representações se confundem e se fusionam. O virtual oferece novos
sistemas de escrita cada vez mais abstratos, misturando o visível e o inteligível,
combinando imagem e linguagem [imagens de síntese, simulação numérica] ou
sobrepondo o mundo real e o mundo virtual [realidade virtual, realidade
ampliada].
De outro lado, a mundialização
[a compressão planetária, a circulação mundial de bens e de signos] faz proliferar
as abstrações econômicas e sociais [do conceito de "livre mercado" ao de "bem
comum"], com conseqüências bem reais. A res publica mundial permanece
sem conteúdo político concreto. As noções de "interesse geral mundial" e de
"bem comum mundial" são particularmente difíceis de caracterizar e de fazer
respeitar, na ausência de uma forma efetiva de governância mundial.
A virtualização e a mundialização,
convergindo, reforçam-se uma à outra, e misturam intimamente duas formas muito
diferentes de abstração até confundí-las: uma, quantitativa, mensurável, e
a outra, qualitativa, imaterial. A abstração do dinheiro e dos números, de
um lado, a abstração das idéias e das essências, de outro. Essa confusão é
perigosa: fonte de amálgamas e de confusões políticas, ela favorece
a reação néo-liberal, impunemente, desreguladora, desestatizante, privatizante.
A abstração não é, em si, um
fenômeno novo, nem a recusa que ela suscita. O que é novo é o império que
ela erigiu sobre os espíritos, sua extensão universal, e a fraqueza do revide.
O que é novo é que a abstração tornou-se o fundo comum de nossa "civilização-mundo".
Na Idade Média, a querela entre
nominalistas e realistas já tratava do peso a ser dado às abstrações na interpretação
do mundo. Essa antiga querela, escolástica em sua época, encontra-se hoje
renovada e assume formas mais políticas. A ideologia do mercado, com seu ódio
à regulação e sua negação do conceito de "bem comum", pode ser qualificada
de néo-nominalista. Simetricamente, a ideologia do interesse geral, da justiça
social e da regulação mundial se aparentaria a um ponto de vista néo-realista.
O pensamento néo-liberal, néo-nominalista,
néo-puritano, amigo das totalidades concretas e das individualidades indentificáveis,
mas inimigo do geral e do universal, esforça-se sem complexo para anular a
própria idéia de "bem comum", sem encontrar resistências teóricas ou políticas
consistentes, por enquanto. Para fazer-lhe frente, falta ainda um pensamento
néo-realista verdadeiro, em escala planetária.
Nós precisamos definir as condições
de possibilidade política e ética de nossa "civilização-mundo". Como regular
sua emergência? Com que fins? Para qual projeto mundial? A "compressão planetária"
dos povos do mundo conduz progressiva e inevitavelmente à formação de facto
de uma comunidade mundial integrada. A cibercultura [outro nome para a cultura
da abstração] é um sinal anunciador da formação dessa comunidade mundial,
prefigurando a emergência de um planeta dos espíritos,
de uma noosfera, capaz de iniciar um renascimento da Humanidade.
Tres datas fundadoras caracterizam
a Renascença européia: 1454, 1492, 1517. Tres nomes a pontuam: Gutemberg,
Colombo, Lutero. Tres invenções a resumem: a imprensa, a América, a Reforma.
Não é uma nova Renascença que
se prepara, um renascimento mundial? Como há mais de cinco séculos, assistimos
à invenção quase simultânea de uma nova imprensa, uma nova América e uma nova
Reforma. A nova imprensa é o digital e o virtual. A nova América é
o ciberespaço e o novo mundo da abstração financeira e tecnológica. A nova
Reforma emerge. É a do bem comum mundial. Falta um novo Lutero para encarná-la.
Faltam-nos também algumas teses
contra as indulgências, a serem afixadas nos portais da internet do mundo,
à imagem das noventa e cinco teses que Lutero pregou na porta da igreja do
castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517. Falta-nos, por exemplo, uma
tese contra a indulgência concedida aos paraísos fiscais, no momento da mundialização
financeira. Uma tese contra a indulgência em relação aos monopólios, no momento
dos rendimentos crescentes e das enormes valorizações em Bolsa que eles autorizam.
Uma tese contra a indulgência da qual beneficiam-se os lobbies e os
grupos de interesse privado, no momento da crise do bem comum e da fraqueza
do interesse geral mundial. Uma tese contra a indulgência do direito ao tratar
com os fortes e os poderosos, no momento em que a exclusão social aumenta,
e a própria noção de justiça social torna-se irrisória.
Nós esperamos essa Reforma,
mas também o Concílio de Trento mundial e as contra-reformas que se seguirão,
e que farão emergir o sentido que ainda falta à nossa civilização planetária.
A planetarização dos espíritos necessita de um sentido, de uma finalidade
compartilhada por todos os povos do mundo para realizar-se efetivamente. Como
esse livro vai esforçar-se por mostrar, o fim mais desejável da planetarização
dos espíritos seria o surgimento de uma verdadeira cultura do Outro.
No momento em que mundialização,
abstração e virtualização representam perigos para a noção de Alteridade,
a idéia do Outro é a mais universal, a mais aberta, a mais rica em surpresas
futuras. O lugar deixado ao Outro enquanto outro - o fora-das-normas, o impensado,
o imprevisível, mas também o mais desfavorecido, o menos armado, o mais fraco
- é o melhor indicador da saúde da civilização-mundo. E é também a fonte última
de seu sentido.
O Outro constitui nosso mais
precioso bem comum mundial, por ser inesgotável, e de uma riqueza infinita.
Resta-nos construir uma cultura da felicidade do Outro, uma cultura da felicidade
do mundo.
(in: Quéau, Ph. La Planète des
Esprits: pour une politique du cyberespace. Paris: Odile Jacob, 2000. p. 7-10.) |
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